Contém spoilers da série. |
Haibane Renmei ganhou um lugar no meu coração.
Foi um caminho estranho. Quando deparei com ilustrações do ABe para Haibane, e já há algum tempo desde que as vi e então fui atrás do trailer, senti um desconforto enorme com a paisagem desbotada e pinceladas tão carregadas na mesma arte. Apesar de acostumado às ilustrações de Serial Experiments Lain, causou um embrulho no estômago.
Mais recentemente, há cerca de uma semana quando fui atrás de trailers, abertura e encerramento do anime - talvez movido pelos recorrência dessa impressão desconfortável, percebi que não era mesmo o estilo de arte responsável por colocar essa pulga atrás da orelha, mas as cores. Em boa parte do tempo, Haibane transita entre verdes pouco vibrantes e azuis-marinho, compondo impressões etéreas mesmo nos cenários mais ordinários imagináveis, os mais básicos dessas animes de histórias de fantasia.
Mas cenário, por si só, não sinalizava desleixo, falta de competência dos produtores nem nada do que costuma causar os muitos vícios da mídia. Na verdade, deixa-lo ordinário é uma prática tão deliberada que podemos encontrá-la subvertida em várias situações em razão de articular para propósitos narrativos posteriores, e essa foi uma das surpresas que levou Haibane Renmei a conquistar seu lugar entre meus favoritos.
A começar pelo worldbuilding, aparenta não ter muito a oferecer, e é ótimo!
O anime trata da morte, mas não propõe discuti-la da forma como induz a pensar inicialmente. Nosso primeiro vislumbre é de uma menina vestindo branco, caindo do céu, dividindo a tela com um corvo e descrevendo sensações. Nesse início, a semântica direciona para uma tipicidade de estória contada do ponto de vista dessa personagem após sua morte. Assim como imagens promocionais também sugerem por mostrá-la com uma auréola brilhante, pequenas asas nas costas e roupas brancas; signos convencionalmente atribuídos à seres do além-vida por influência de imagens de contexto místico/religioso em referências ocidentais (embora estas sejam muito subvertidas em anime).
A sugestão é de que ela morreu, e então veremos uma resposta para esta pergunta que nos assola: o que vem depois?
Haibane Renmei não é uma série sobre o depois, mas sobre os tão belos, efêmeros e preciosos momentos terrenos, e como devemos aproveita-los a partir da nossa incerteza.
Interpretar Haibane através de convenções como "purgatório", "céu", "limbo" e outras conceituações pouco tangíveis é um delírio tão grande quanto a cega busca por atravessar a grande muralha daquele mundo. De fato, Rakka busca uma resposta nos livros disponíveis na cidade, muitos alí buscaram durante toda a vida por conhecimento de além das muralhas, mas a história não tarda a frear nossa curiosidade a respeito desses tópicos, mostrando como o conhecimento que obteremos dentre o limitado tempo que temos é diminuto frente à devastadora efemeridade da vida, por isso o nosso saber será sempre limitado.
Reki expressa nos últimos episódios: